Prateleira 001
Bom, com o final de semana se aproximando, arriscarei aqui algumas dicas particulares sobre música, cinema e outras coisas. Tenham em mente que estas são opiniões muito próprias e subjetivas, e que vocês não só podem desgostá-las como também devem revidá-las (ou apoiá-las) em seus comentários. Muito bem, aí vão:

Múisca:
Nessa semana indico dois de meus discos prediletos. O primeiro, Kind of Blue (gravadora Columbia) do saudoso trompetista Miles Davis. Esse disco foi gravado em março e abril de 1959 (!) em Nova Iorque. Fala-se que Miles, Julian Adderly (saxofone), Wyn Kelly e Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria) gravaram o disco sem nenhum ensaio prévio. Foi tudo na base da espontaneidade e do improviso. O resultado é uma primorosa fluência de harmonias, temas melódicos, solos, ginga e "swing". Obra prima do jazz. O disco traz as faixas So What, Freddie the Freeloader, Blue in Green, All Blues e Flamenco Sketches. Clima tranquilo para você relaxar, ouvir e curtir.
O segundo disco é o excelente Elis & Tom, obviamente de Elis Regina e Tom Jobim. Esse disco influenciou e continua influenciando muitas gerações de músicos brasileiros e internacionais. Foi gravado entre fevereiro e março de 1974 em Los Angeles (EUA) e produzido por Aloysio de Oliveira. O time é simplesmente espetacular com César Camargo Mariano (piano e arranjos), Luizão Maia (baixo), Helio Delmiro e Oscar Castro Neves (violões/guitarras), Paulo Braga (bateria) além desses dois grandes mitos da música brasileira. O que impressiona também é saber que o disco foi todo gravado em apenas 2 semanas. Contém canções consagradas do eterno maestro Jobim (e de seus parceiros Vinícius de Moraes, Chico Buarque e Aloysio de Oliveira) e interpretações inesquecíveis da "pimentinha" Elis e do próprio Tom. O repertório traz a antológica gravação de Águas de Março, Pois É, Só Tinha de Ser com Você, Modinha, Triste, Corcovado, O Que Tinha de Ser, Retrato em Branco e Preto, Brigas Nunca Mais, Por Toda a Minha Vida, Fotografia, Soneto de Separação, Chovendo na Roseira e Inútil Paisagem. É um disco simplesmente imprescindível para quem aprecia música brasileira. Foi recente remixado e remasterizado (sob a supervisão de César C. Mariano) e relançado pela gravadora Trama.

Cinema:
Vou indicar algum filme que vi recentemente e que ainda possa estar em cartaz. Gostei bastante da comédia "Terapia do Amor" do roteirista e diretor Ben Younger com Meryl Streep, Uma Thurman e o competente novato Bryan Greenberg. O trio atua de forma natural e bastante convincente, envolvendo o espectador com despretensão e ótimo humor. Dei boas gargalhadas. O desfecho é um tanto inesperado. Não é nenhum tratado de filosofia mas agrada e diverte.

Livro:
Recentemente terminei de ler "O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha" (editora Record; essa edição reúne parte da obra completa). São quase 600 páginas de muita diversão nesse clássico da literatura universal. Não há como descrever a sensação de acompanhar as aventuras desvairadas do "Cavaleiro da Triste Figura" D. Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança. Se não me engano, ano passado essa obra-prima de Miguel de Cervantes completou quatrocentos anos de vida com muito vigor, sendo ainda extremamente atual e relevante.

É isso; espero que essas dicas sirvam para alguma coisa. Tentarei atualizá-las semanalmente sempre que o fim-de-semana estiver se aproximando (e sempre que meu tempo permitir). Gostaria que vocês contribuissem com suas próprias opiniões e dicas nos comentários. Obrigado e tenham um ótimo final de semana. Música na Alma.
Primeiro Texto
Hoje (segunda-feira 15-05-06) presenciamos em São Paulo um verdadeiro absurdo. Para quem nunca havia entrado em contato direto com o clima de guerra, a capital (junto com outras cidades do Estado) foi um triste cenário de caos e pânico muito parecido com o que alguns de nós só tinha visto pela TV até então. Se tudo foi real ou gerado por boataria inconsequente, não importa muito. O que sabemos é que a maior cidade do Brasil e da América do Sul congelou perante ao crime, à ameaça e ao ódio. Pessoas assustadas (inclusive eu) fugiam como se um ataque de bomba nuclear estivesse anunciado. A impotência tomou conta; justo durante e após a comemoração do dia das mães (dia que simboliza, entre outras coisas, o respeito e a compaixão).
Muitos dizem que o Brasil é abençoado por não ter expressivos desastres naturais ou por ser um país que, optando geralmente pela prática da boa vizinhança, afasta de si situações internacionais de guerra. Por hora, consigo até enxergar a tal benção nessas questões; mas e o resto? E nosso desempenho como cidadãos brasileiros? E essa guerra civil disfarçada que nos acomete há tanto tempo? A corrupção, a desigualdade, o descaso e o clima de banditismo e medo que domina quase todos os Estados de nossa nação geram as mais temíveis das batalhas. Nessa situação, somos todos responsáveis (ou melhor, irresponsáveis). Assim como a "vista-grossa" do sistema penal diante da utilização de celulares nas cadeias, permitindo que presos perigosos continuem a comandar remotamente suas redes de crime, nós também colaboramos com atitudes cegas e negligentes. O tal "jeitinho" brasileiro do cada-um-por-si já se mostrou completamente inadequado para nossa (ou qualquer) sociedade, mas, infelizmente, ainda impera em várias situações. A desigualdade social, a corrupção, os sistemas falhos de moradia, saneamento, educação e saúde são alguns dos temas que preferimos empurrar para debaixo do tapete a tentar resolvê-los como cidadãos responsáveis. Certas coisas nos incomodam por um tempo, mas se há uma solução paliativa e imediata (nem sempre eficaz), logo nos esquecemos do real motivo do problema. Tem sido assim desde sempre. Veja o que acontece com o caso do mensalão por exemplo. A copa vai chegando, as eleições vão se aproximando e aquela situação seríssima vai se transformando em nada. A população quer honestidade e respeito, mas não quer realmente cobrar por isso. Alguns dizem: "Se eu não consigo nem controlar um direito só meu em casa ou no trabalho, imagine um que pertence a toda uma sociedade. Dá muito trabalho; tenho mais é que cuidar de mim!" E nessa preguiça egoísta a gente segue convivendo com situações iguais à essa do pânico em Sampa. Tapa-se o sol com peneira larga.
Sem falar na pseudo-inocente conivência com o crime, a impaciência e o ódio. As pessoas apavoradas de hoje são, em muitos casos, as mesmas que alimentam o comércio e o tráfico de drogas, espalham mensagens de preconceito e ódio pela internet (vide a quantidade de comunidades Eu Odeio Alguém no orkut) e banalizam a violência atráves de suas atitudes no trânsito ou em uma simples fila de banco. Não me isento dessa culpa, não. Faço parte de uma juventude brasileira egoísta, consumista e inoperante que não enxerga relação entre ato e consequência. Isso há de mudar. A sensação de impotência que senti hoje não pode e nem deve desaparecer no "tique-taquear" das horas. Democraticamente, devemos cobrar às autoridades sim, mas acima de tudo, devemos cobrar a nós mesmos. Perdoe-me por escrever um texto tão longo logo na estréia de meu blog. Não teve muito a ver com minha música, mas teve tudo a ver com minha casa, minha São Paulo, meu Brasil. (J.O.)
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